Alternativas
por
Ricardo Arroja
26-07-2010
(publicado no jornal "Vida Económica")
Em época de crise, acentua-se a procura de alternativas. No caso particular da banca, as taxas de remuneração dos depósitos a prazo são hoje relativamente baixas, o que tem conduzido muito aforradores a contemplarem outras possibilidades. De acordo com dados do Banco de Portugal citados esta semana pela imprensa especializada, em Maio, o montante captado pelos bancos portugueses junto dos particulares foi o mais baixo desde Junho de 2006. E a opinião generalizada é que a recente introdução dos Certificados do Tesouro contribuirá para agravar ainda mais aquela tendência, que se arrasta desde o início do ano, em resultado da baixa rentabilidade associada aos depósitos a prazo tradicionais. Hoje em dia, um depósito a prazo oferece uma taxa de juro compreendida entre 1 e 2,5% ao ano, o que, deduzida de impostos – que foram aumentados nesta última leva das Finanças – se traduz numa remuneração líquida anual de 0,79% a 1,96%. É pouco – dizem os aforradores.
De facto, estas remunerações estão bastante abaixo do normal para um depósito a prazo, que, tendo em conta as médias históricas, deveria nivelar-se na casa dos 5% ao ano. Existem, aliás, muitas críticas dirigidas ao sector financeiro, pressionando os bancos a tornarem-se mais competitivos nas taxas, sobretudo, agora, nesta altura de crise, em que toda a poupança é bem vinda. Em Espanha, essa pressão já resultou e os bancos espanhóis têm-se revelado mais generosos nas remunerações que concedem aos seus depositantes. Em Portugal, apesar de toda a conversa nesse sentido, ainda não se passou das palavras aos actos. Diria até, que dos cinco principais bancos nacionais, no que diz respeito aos depósitos a prazo, há três com quem, pura e simplesmente, nem vale a pena conversar.
Assim sendo, onde é que se remunera melhor o dinheiro? A alternativa clássica é o universo das pequenas gestoras de activos – universo no qual eu, humildemente, me situo – que, de forma directa ou indirecta, acabam por concorrer com a oferta financeira dos bancos. Neste domínio, o mais provável é encontrar quem lhe ofereça uma carteira de obrigações, de acções, de fundos de investimento ou de futuros que, gerida de forma mais ou menos activa e exposta a mais ou menos risco, lhe permita poder ganhar mais do que estando num simples depósito a prazo. Em Portugal, não faltam casas destas, sujeitas aos mesmos critérios de supervisão bancária da CMVM e do Banco de Portugal e que, porventura, são até aplicados com maior rigidez do que quando aplicados aos bancos. De resto, é curioso observar que, nesta recente crise bancária, entre as instituições de menor dimensão e mais especializadas não houve situações idênticas àquelas ocorridas no BPN e no BPP.
Ao mesmo tempo, existem outras alternativas que eu designaria de exóticas e com maior grau de risco sistémico, em particular o investimento em ouro ou outros activos tangíveis. Neste domínio, convém recordar o episódio dos selos. Aquilo que começou num pequeno negócio reservado a coleccionadores transformou-se rapidamente num grande negócio de intermediação financeira – de facto, mas não de direito – e tudo resultou numa enorme bolha especulativa, numa alegada burla e em milhares de milhões de euros perdidos entre os aforradores traídos, por um lado, pelo desconhecimento e, por outro lado, pela ganância. Desta feita, a alternativa exótica mais na moda parece ser o recurso às empresas que compram e vendem ouro e a esse respeito começam a aparecer os típicos sinais de metamorfose do pequeno negócio informal para o grande negócio não institucionalizado. Esta semana um jornal diário, concorrente da Vida Económica, publicou uma extensa reportagem na qual se escrevia que, entre as empresas de compra de ouro – que não são simples ourivesarias –, há quem se posicione como “uma instituição financeira”. Sem o ser – acrescento eu. Enfim, o paralelismo com os selos é imediato. Também aqui há uma troca de dinheiro por um activo tangível – outrora os selos, agora o ouro –, desprovido de qualquer enquadramento institucional que promova a transparência e que assegure a mínima protecção dos direitos de investidores, em contrapartida de uma eventual continuação da tendência de alta que esse mesmo activo tem tido nos últimos anos nos mercados internacionais. Um logro? Não necessariamente. Arriscado? Sem dúvida. Por todos os motivos e mais alguns, nomeadamente um: é que, entretanto, o preço do ouro parou de subir!
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