Especuladores
por
Ricardo Arroja
08-03-2010
(artigo publicado no jornal "Vida Económica")
No início desta semana, dois “pesos pesados” da diplomacia europeia dispararam – ou disparataram, conforme a perspectiva – contra a suposta acção dos alegados especuladores que têm actuado nos mercados internacionais, com o único propósito de atacar a soberania financeira de alguns estados membros da União Europeia. Enfim, em alturas de crise é fácil apontar as culpas aos outros em vez de procurar na nossa própria casa se somos responsáveis, ou não, pelos problemas. E, mais ainda, existe alguma tendência – que se sente com particular incidência nos países do sul da Europa – de confundir causas com efeitos e vice-versa. Posto isto, entre as declarações de Jean Paul Juncker (Presidente do Eurogroup) e as afirmações de Christine Lagarde (ministra francesa das Finanças) vai uma grande distância. O primeiro referiu-se ao “equipamento de tortura que temos na cave”, a fim de espantar os mal amados especuladores. E a segunda sugeriu que se acabassem com os infames Credit Default Swaps (CDS). São coisas distintas, como tentarei explicar de seguida.
Contudo, antes de mais nada, quero estabelecer a minha orientação filosófica quanto ao papel dos especuladores. Na minha opinião, estes são essenciais ao propósito que se atribui a qualquer mercado transparente, e devidamente regulado, pois contribuem para a liquidez desse próprio mercado – e um mercado mais líquido, isto é, com maior volume de transacções, é sempre mais justo e, em geral, mais próximo do seu preço de equilíbrio. Por outras palavras, quanto maior a participação de todo o tipo de agentes financeiros – os investidores, com uma agenda de longo prazo, e os especuladores, com uma agenda de curto e médio prazo – maior a qualidade do mercado e maior a sua correspondência com a realidade económica, que é para isso que, em boa medida, os mercados servem. Mas, enfim, há quem conteste esta perspectiva, qualificando-a como um mero axioma, ou seja, que não é demonstrável, daí a necessidade de me referir concretamente a este postulado. Por isso, se o leitor não concordar, o melhor é parar aqui!
Regressando ao início desta crónica, as afirmações de Jean Claude Juncker são típicas de alguém que vê o chão a fugir-lhe debaixo dos pés. E são a demonstração de uma certa incapacidade da Europa em chegar a um acordo na questão da Grécia. Quando os chefes de Estado, há umas semanas, declararam que não deixariam cair a Grécia fizeram-no sem dar detalhes de como o fariam. Foi aquilo a que se chama “bluff” e que funcionou muito bem noutras alturas – como, por exemplo, quando, no auge da crise bancária de 2008, os mesmos chefes de Estado desencantaram milhares de milhões de euros de garantias bancárias públicas para os bancos em aflição –, mas que agora não estão a funcionar tão bem. Os chamados “especuladores” estão apenas a explorar as debilidades estruturais da Grécia, que a incompetência do Eurostat e as maroscas contabilísticas dos gregos ocultaram durante quase dez anos. Ou seja, é graças aos especuladores, e ao efeito que estes exercem sobre os mercados, que a União Europeia é finalmente forçada a tomar acção sobre todos aqueles que nos últimos anos almoçaram de borla, à custa dos que, cumprindo as regras, se comportaram de forma decente e responsável.
Quanto às declarações de Christine Lagarde, embora excessivas, vejo nelas uma certa justiça e razão de ser. Porque, de facto, o mercado de Credit Default Swaps permanece um domínio relativamente obscuro – pois, apesar dos índices, as operações são realizadas fora de bolsa – e altamente alavancado – quem emite e vende não é obrigado a atestar a sua capacidade de honrar os compromissos de contraparte caso o mundo acabe, incentivando à tomada ilimitada de risco. Ou seja, os Credit Default Swaps enfermam de muitos defeitos, alguns dos quais, nomeadamente a alavancagem infinita, quase causaram o colapso de todo o sistema bancário em 2008. Por isso, reconheço algum mérito à crítica da ministra francesa. Contudo, não posso partilhar da sua sentença, pois, se esta fosse executada, tratar-se-ia de uma intromissão inaceitável dos governos, imponde uma nuvem de fumo e desvirtuando os mercados, com um único fim: proteger aqueles que não merecem ser protegidos. Pelo contrário, caros leitores, já repararam que, apesar de boa parte da dívida pública grega ser detida por bancos alemães e franceses, os especuladores ainda não atacaram a Alemanha nem a França? Enfim, talvez seja por alguma razão…
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